sábado, março 08, 2008

Ser Mulher

Uma Flor Entre Flores *



Ser mulher


Ser mulher
, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida, a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...


Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor,
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um Senhor...


Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...


Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!


Gilka Machado


* Fotos: Internet
* Montagem: R. Coelho

terça-feira, março 04, 2008

Felicidade é...

... ter um bilhete para a primeira fila deste ímpar milagre!

Fila A, Lugar 1...


Atrium SolarisRui C. (2008)

Mas a sala tinha muitos lugares vazios...

sábado, março 01, 2008

E se o (meu) mundo...

... se resumisse a treze palavras?



Pediram-me doze palavras...
E que doces palavras seriam essas?
Acabei por treze escolher...
Pois não podia deixar de incluir: "Acreditar"...
... em mim, nos outros, no futuro...
Simplesmente... Acreditar!

Podiam até ter sido muitas mais...
mas havia um limite,
que por paradoxo, foi cumprido e ultrapassado...
Foram estas treze as escolhidas...
para ganharem nova vida neste lugar...
Foram estas... as que mais me fizeram sorrir
enquanto as estava a escrevinhar...

Podia até ter-lhes escrito um texto,
utilizando essas doces palavras...
mas faltava tempo e inspiração!
E eis que num repente repentino
foram-se encruzilhando entre si
sem que pudessem ser impedidas...
Pois, as palavras não vivem sozinhas...
E não se deve contrariar palavras decididas!!!

Há palavras com forte personalidade e...
às vezes, ganham vida própria!

E se o mundo… - Pedro GiniO
(foto adaptada por R. Coelho para este post)
[CLICAR na foto para se ver melhor]


Houve uma palavra que propositadamente não foi escrita (a antepenúltima). Não a quis, para já, revelar... Tudo tem um altura certa! Mas não podia deixar de lhe reservar um cantinho "só para ela"! :-)

Por outro lado, posso também deixar o desafio de escolherem outra que vos tenha tanto significado, como esta tem para mim... :-)

Aguardo comentários... :-)

:-D

PALABÉNS...

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Esgotei o meu mal, agora

Fecha-se uma porta...
Rui C. (2007)

Esgotei o meu mal, agora
Queria tudo esquecer, tudo abandonar
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.

Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tudo tem um fim...



ENFIM...




quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Buried Bones



Tindersticks


Uma música... Um filme...


quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Ctrl + Alt + Del




:-(




segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Escrita de um sonho breve


Na curva de um sonho,
Encontrei ternura e magia
Ness'olhar sereno e risonho...

Na curva de um sonho
Rui C. (2008)



Esperarei calma e tranquilamenteAté que minha esperança
Se antepasse e envelheça...



Até que a Espera(nça) Se Envelheça...
Rui C. (2008)



Através dos ramos,
Uma luz baça e longínqua...
Onde estás?

Onde Estás?
Rui C. (2008)



Textos (excertos):
R. Lima

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Tela Abensonhada

Tela Abensonhada
Rui C. (2008)


Procuro-te
Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,

a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te.


in As Palavras Interditas
Eugénio de Andrade

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Sugestão #5

Uma descoberta recente... e do melhor que tenho ouvido!
:-D

*****





“Dance With Me" (*)

Nouvelle Vague



(*) original de "Lords of the New Church”



Ai, aquela voz... :-}







segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Dourado

Espectáculo solar...

Onde Me Levas... Rio?
Rui C. (2008)

Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
de uma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.



In As Mãos e os Frutos
Eugénio de Andrade

Arte Humana


Lindo!

Dá-me uma mãozinha
Rui C. (2008)






quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Um dia...

O melhor do dia foi mesmo o café Nicola (passo a publicidade, mas é o meu preferido), que bebi à tarde...
E há coisas curiosas que dão que pensar...

Quase...

Sou uma Nuvem Passageira
Rui C. (2007)



Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para ati
ngir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário de Sá-Carneiro

Futuro do Indicativo

"Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra."

Raul Brandão - in Memórias

Foto tirada da Internet
(sem créditos)

Pretérito Imperfeito do Indicativo

Gastámos Tudo Menos o Silêncio
Mariah


Sometimes with One I Love


Sometimes with one I love
I fill myself with rage
for fear I effuse unreturn'd love,
But now I think there is no unreturn'd love,
the pay is certain one way or another,
(I loved a certain person ardently
and my love was not return'd,
Yet out of that I have written these songs.)



Walt Whitman


quarta-feira, fevereiro 06, 2008

O meu último Voo Nocturno

Swordfish Augusta Raid Aug 1940
by C McHugh


Voo Nocturno


Agora já não vejo o sol
nem o seu reflexo lunar
levo as asas nos bolsos
e o coração a planar
neste voo nocturno
não sei onde vou aterrar

Sinto as nuvens nos meus pulsos
e o leme sempre a consentir
são sempre os mesmos ossos
que eu insisto em partir
neste voo nocturno
só quero mesmo resistir

Neste voo nocturno sou mais leve do que o ar
neste voo nocturno não sei onde vou acordar

Em baixo há manchas no canal
mas eu não as quero ver
o aeroplano está frio
e as hélices a ferver
o nariz do avião
só obedece a quem quiser

Agora não existe nada
o meu motor "ao ralenti"
vou revendo em surdina
tudo o que eu vivi
neste voo nocturno
a madrugada vem aí


Jorge Palma

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Bem-aventurados os humildes...


Afinal de contas, parece que acabaram por dar a mão à palmatória! Acho que fica sempre bem saber reconhecer os nossos erros! :-)

Uma bonita atitude de humildade, ou será umildade...? ;-)
O "novo" Acordo Ortográfico está aí quase a estalar... E aos anos que é "quase"!

Sábado saem as pautas! Depois digam-me quanto tive e se dá para ir à 2ª Frequência!

Parabéns :-)

Gelukkige verjaardag!
(Dutch-Flemish)
Joyeux Anniversaire!
(Français)
Feliz Aniversário!
(Português)

Foi só uma piada!!! Eh! Eh! Eh!


domingo, fevereiro 03, 2008

Coisas que não entendo :-/

O Campeonato da Língua Portuguesa (versão 2008) brinda-nos com esta pérola!



Alguém me sabe explicar o porquê de ser uma aliteração e não um polissíndeto?
Não entendo... :-(

Dumailindo...


...

Ninguém...

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

"Palabéns"

Palabéns Lafael...



Um mesinho já cá canta!
Ah, pois é!!!!

:-D




Onde tudo começa e onde tudo acaba

Uma exposição original de Arte Pop...
"Love & Numbers" de Robert Indiana


Amor...
Onde tudo começa...

Amor - Robert Indiana
(Praça Marquês de Pombal)


Ou o fascínio dos números...
No início era o Verbo!

One - Robert Indiana
(Av. da Liberdade)


A eterna procura... A dois!

Two - Robert Indiana
(Av. da Liberdade)


A felicidade... da multiplicação...

Three - Robert Indiana
(Av. da Liberdade)

Quadratura!

Four - Robert Indiana
(Av. da Liberdade)


As estrelas...

Five - Robert Indiana
(Av. da Liberdade)


Devil number... :-(

Six - Robert Indiana
(Av. da Liberdade)


Lucky number! Not mine!
Alguma magia...!

Seven - Robert Indiana
(Av. da Liberdade)


My lucky number.
Nunca acaba... o "número-infinito"!

Eight - Robert Indiana
(Av. da Liberdade)

Noves fora...

Nine - Robert Indiana
(Av. da Liberdade)

... Nada!
O Santo Graal dos Números!

Zero - Robert Indiana
(Restauradores)


A eterna demanda!

Love - Robert Indiana
(Rossio)

Deviam ser apenas estas as paredes/muros da nossa vida... Love Wall!

Love Wall - Robert Indiana
(Rossio)


Love! ... e onde tudo acaba!

Imperial Love - Robert Indiana
(Rossio)


Fotos: R. Coelho (2008)


Interessante a coincidência! Uma viagem através da Liberdade, começando no Amor e acabando nele mesmo...

Em exposição até ao final do mês.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Último Reduto


Ultimo Reduto

Meu coração é bom naturalmente.
Gosta do mar, da terra e das crianças.
Bate uma vida inteira sem mudanças,
Se ninguém o magoar.
No seu calor, é quente
Qualquer amor que o venha visitar.

Fonte dum rio que dá volta ao corpo
Da humanidade,
Nunca, em nenhuma idade,
Empobreceu a força do caudal!
Generosa, fecunda e permanente,
A vermelha corrente
Regou sempre a secura do areal.

E querem duvidar desta certeza!
Querem que uma represa
De amargura
Seja a vil sepultura
Dum abraço que sempre se alargou!
Querem que a noite da desilusão
Se dobre sobre cada pulsação
Da onda que a ternura levantou!

Alto ladrões do sol da primavera!
O que querem roubar,
é uma flor que supera
O fruto !
Uma presença tão familiar
Que nos deixa de luto
Se faltar.


Miguel Torga - "Cântico do Homem"

terça-feira, janeiro 29, 2008

Sonhando...

Sonhando...

É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!


D’olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d’alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.


Lá vem a tua agora… Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa


Que a minh’alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija… e a tua alma passa!…


Florbela Espanca

@}-

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Cartas


Cartas


Há cartas e cartas!

Há cartas de amizades, paixões e amores,
Outras de obtusos e geométricos rigores.
Há cartas sóbrias, outras alegres... às cores,
E há as carregadas de tristeza e dolores.

Há cartas que nos fazem vibrar e voar...
Outras com contas e contas p’ra pagar.
Há cartas que nos fazem
rir e sonhar,
E há as que nunca deviam chegar…

Há cartas e cartas…


Rodrigo Lima - Poesias Avulsas

quinta-feira, janeiro 24, 2008

:'-(


Pois é! Esgotaram... :'-(

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Parei as Águas do Meu Sonho

Rays of Light Through Cloud
(bovitz.com)


Parei as Águas do Meu Sonho


Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...

Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.

Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
porque insisto em te imaginar?

Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.

Cecília Meireles


Crepúsculos

Crepúsculo - José Luis Gonzalez
(www.brilloestelar.com)


"Para quê olhar para os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns dos quais que o não são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu próprio os sou, por dentro? "

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

segunda-feira, janeiro 21, 2008

A um ti que eu inventei...

Solitária II - António Lança


A Um Ti Que Inventei

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança

um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura

como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.


António Gedeão




domingo, janeiro 20, 2008

Árvore


Árvore, árvore. Um dia serei árvore.
Com a maternal cumplicidade do verão.
Que pombos torcazes
anunciam.

Um dia abandonarei as mãos
ao barro ainda quente do silêncio,
subirei pelo céu,
às árvores são consentidas coisas assim.

Habitarei então o olhar nu,
fatigado do corpo, esse deserto
repetido nas águas,
enquanto a bruma é sobre as folhas

que pousa as mãos molhadas.
E o lume.


Eugénio de Andrade

domingo, janeiro 13, 2008

Scenic World

Há músicas realmente contagiantes...
A menina dança...?




Scenic World


the lights go on
the lights go off
when things don't feel right
i lie down like a tired dog
licking his wounds in the shade

when i feel alive
i try to immagine a careless life
a scenic world where the sunsets are all
breathtaking


Beirut

Who Are U?




Who Are U?

Ever since I saw you
I want to hold you
Like you were the one

It sees right through me
A bullet it comes and takes me
And I love you I love you
I want you but I fear you

Who are u?
Who are u?

Ever since I saw you
I want to hold you
Like you were the one

Your feet rest on my shoes
I sing this song for you
Just to see you smile

And I love you I love you
I love you but I fear you

Who are u?
Who are u?

For how long
How strong do I still have to be?
How come you mean so much to me?

For how long
How strong do I still have to be?
How come you mean so much to me?

And I love you I love you
I want you but I fear you

Who are u?
who are you?(x4)

For how long
How strong do I still have to be?
How come you mean so much to me?

For how long
How strong do I still have to be?



David Fonseca

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Palavras de Cal


"Aproximei-me do rio, da árvore velha e sentei-me. Passaram instantes em que o esperei, em que imaginei que ele pudesse não vir, em que o esperei a imaginar que ele podia não vir. O rio continuava o êxodo das coisas belas. Havia águas que eram crianças e que vinham para diante dos meus pés e que me diziam palavras frágeis que eu ainda não entendia, lamentos, lágrimas que eu ainda não entendia. Senti uma mão tocar-me no ombro. Voltei-me e vi o sol. Perguntou posso sentar-me? Sentimos a presença um do outro. O rio sentiu a nossa presença. O meu olhar ia com o rio. Havia uma aragem que trazia a água, que trazia o fresco da água. Senti os seus dedos no meu pescoço, na minha face, nos meus cabelos. Virei-me para ele. O seu rosto aproximou-se. Os seus lábios aproximaram-se lentamente."

excerto de "A Víúva Junto ao Rio"
in "Cal" - José Luís Peixoto



Idade em que os afectos estão mais amadurecidos, a velhice acaba por ser uma viagem muitas vezes vivida em ruidosa solidão, na proximidade de um fim que se quer longe e que se tenta fintar, "tornando-se a criança"... Viagem pontualmente polvilhada de personagens "menos velhas" que olham os "velhos" mas não os vêem, que os ouvem mas não os escutam...
"Cal" é um conjunto de viagens às vivências da velhice. Viagens às vezes trágicas, outras melancólicas ou até... cheias de ternura! É bom descobrir autores que nos fazem "Sentir"... e cuja escrita é uma verdadeira lufada de ar fresco.


"(...)
- Estes campos não são nada pequenos. Não admira que, às vezes a gente se senta tão sozinhos.
- Eu acho que não é por os campos serem grandes. É porque a gente já vimos tanta coisa. A gente pára-se a olhar para estes campos e distinguimos na terra uma pequena parte das coisas todas que já vimos, e depois, quando voltamos a olhar, não está lá nada. Está tudo vazio. Por isso é que a gente se sente sozinhos às vezes.
(...)"

excerto de "À Manhã"
in "Cal" - José Luís Peixoto


terça-feira, janeiro 08, 2008

...



A Rainha


Proclamei-te rainha.

Há-as mais altas do que tu, mais altas.

Há-as mais puras do que tu, mais puras.
Há-as mais belas do que tu, mais belas.

Mas tu és a rainha.


Quando vais pela rua,

ninguém te reconhece.
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém repara
na alfombra de ouro rubro
que pisas ao passar,

a alfombra que não existe.

E, quando surges,

todos os rios marulham

no meu corpo, os sinos

abalam o céu,

e um hino enche o mundo.

Apenas tu e eu,
apenas tu e eu, meu amor,

o escutamos.



in "Versos do Capitão" - Pablo Neruda

segunda-feira, janeiro 07, 2008

1 de Janeiro de 2008

Rafael

Em Hebreu, significa "Deus cura", Medicina de Deus.
Pessoa paciente e perseverante, que procura beneficiar os que precisam de ajuda. Mas, ao mesmo tempo, usa de todos os meios ao seu alcance para obter sucesso e prestígio.



[ 01.01.2008 ]
[ PauloTav ]


Infância



Sou pequeno

e penso em coisas grandes:
pomares e mais pomares,
jardins de flores e flores
e pelas montanhas e vales
grama verdinha e bosques,
com milhões de árvores
e asas de passarinhos.

Rios e mares de peixes
— aquários largos e livres
— ar dos campos e praias,
a manhã trazendo o dia
com o sol da esperança
e a noite de sonhos lindos,
nuvens calmas, lua e astros,
minhas mãos pegando estrelas
neste céu de doce infância.

E pelas estradas claras
meu cavalinho veloz
no galopar mais feliz:
— eu e ele sorrindo,
levando nosso cristal
para os meninos do mundo.


Cleonice Rainho





Bem-vindo!!!

 
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